Um insight sobre o tempo







Os olhos arregalaram. Sim, meus olhos arregalaram e não foi por um espanto de uma notícia que não se espera ou por ver uma transa alheia de alguém na sacada do prédio...

Os olhos espantaram ao olhar pro calendário e perceber o quanto este ano está passando rápido e eu nem percebi! Já é quase setembro, como assim?! Ai bateu uma pressa, de repente. Pressa de terminar prazos, pressa de viver, concretizar coisas que passaram na cabeça...mas também olhei pro tanto de coisas que já rolaram e eu também não me dei conta. 

A gente acaba muito olhando pro tempo cronológico das coisas e esquece que o tempo já é, não é preciso se apressar porque neste exato momento ele já está sendo, independente de nós. O que muda são as escolhas diante dele. Acredito que seja mais ou menos como aquela frase do Saramago "não tenhamos pressa, mas não percamos tempo." . Faz sentido... - mas nem sempre funciona em tempos líquidos.



K.C



via Instagram @kelly_christi



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Parágrafos de liberdade

Tatuagens de Kelly Christi/ Instagram



[Era pra ser uma legenda das minhas tattoos rs, mas quando vi já era uma mini- crônica, leia se quiser]

Às vezes, me perguntam das minhas tatuagens então resolvi postar, já que nem sempre elas aparecem nas fotos. À direita é minha borboleta, eu fiz há um bom tempo, estava na faculdade ainda, aprendendo a ter a minha própria liberdade e esse é o principal significado dela pra mim.

Como uma boa filha de aquarius, eu não gosto de me sentir presa,  eu prezo por liberdade em todos os sentidos, no meu modo de viver, de pensar,  de me expressar, de amar também ( não , não, isto tem nada a ver com libertinagem ou da liberdade de pegar os bofinhos, mas sim com a liberdade de escolha em ter ou não ter alguém.).

À esquerda, não é um símbolo de organização secreta, como às vezes eu brinco por aí, e o pior é que alguns acreditam rsrs, é um parágrafo tatuado no meu braço direito, ela é mais ou menos recente e simboliza o que a escrita é na minha vida, ela faz parte do meu ganha-pão já que trabalho com jornalismo e conteúdo criativo - e como trabalho!!!.

É ainda por onde expresso meus anseios, meus desejos, é aquilo que me salva de viver num mundo hostil , é por onde crio ângulos e personagens que às vezes eu nem sabia que estavam ali, transbordando na minha cabeça .

Parágrafo também aquilo que sucede o ponto final. É a prova de que histórias começam e acabam, que sempre vai haver uma forma de começar novas histórias não só na imaginação, mas na vivência do dia a dia, isto é encantador.

Se elas serão boas ou ruins já não sei,  não tenho mais a insistência em controlar a vida ou saber onde ela vai parar... a gente planeja um monte de coisas e de repente acontece uma vírgula que muda todo o contexto, o ponto final e parágrafo seguinte.

No fundo, ninguém consegue controlar a vida, ela é um parágrafo indecifrável.

                           K.C


#tattos #liberdade #crônica #gratidão #kellychristi

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Quanto vale um crush?





Um leitor mandou um e-mail, me pedindo pra escrever uma crônica sobre crushes e as relações enroladas que, às vezes, eles trazem. Sinceramente, eu nunca consegui entender muito bem essa onda de crushes, por mais que, de repente, eu sinta que sou crush de alguém e alguém acaba virando meu crush

O papo pode até parecer adolescente, mas da minha própria experiência e de amigos de várias idades que me contam causos : crushes muitas vezes não ficam só naquela paquerinha platônica,  de leve, como o sentido da palavra sugere, não.  Às vezes é divertido, mas um envolvimento maior com o crush pode virar um sentimento mais forte que não se sabe bem o que é e ai que começa a história...

Em um belo dia, em alguma rede social , algum aplicativo ou um lugar físico qualquer os crushes aparecem, alguns você nem leva a sério, mas sempre tem um que bate pinta. Começam a trocar mensagens todos os dias que despertam interesses, vocês se encontram, ficam de vez em quando, até que um dia já não sabem bem explicar o que estão sentindo um pelo outro, e nem onde isso vai parar.

Passam a vasculhar as redes sociais para ver qual é a concorrência em potencial, não curtem nenhuma de suas postagens, param de responder com frequência ou deixam o outro esperando resposta, afinal  o silêncio é necessário, por que você precisa demonstrar ao crush que não está nem aí, e é verdade, não é mesmo?

Aliás, rola até um ciuminho, mas o jeito é fingir que você abstraiu, já que não há relação definida entre vocês e nada se pode cobrar, desejar, ou criar expectativas e vida que segue para os próximos crushes, mesmo que de vez em quando você bisbilhote o que o crush passado anda fazendo, mas não significa que seja importante. 

Já ouviu  ou viveu alguma historinha parecida?  Eu “nunca”. 




Se no século 19, tudo isto era considerado uma paixão, e já estaríamos morrendo em uma epidemia de tuberculose, hoje, tentamos rotular em diversos nomes, como “crush”, o que sentimos e acabamos vivendo em uma epidemia de incertezas, sem saber o que fomos e aos poucos nos tornarmos lembranças vagas de alguém. 

Talvez, aquele crush que acaba mexendo com sua cabeça feito uma guitarra do Jimi Hendrix , seja complicado de lidar por que, se a gente parar pra pensar... acabamos lidando com muitos sentimentos sozinhos, sem sair do pedestal: expectativas - por mais que a gente seja responsável por todas elas, desejos,  sonhos, ciúmes,  e ai fica cada um de um lado bisbilhotando o perfil do outro, imersos em conclusões nem sempre verdadeiras, sem conseguir dizer o que sente, por mais passageiro que aquilo possa ser, e é difícil carregar o que a gente sente pelo outro sozinho.  


O Bauman costumava dizer que todas as relações vivem na ausência de perspectivas, são instáveis, tudo isso gera angústias e medos que nos paralisam e também fazem com que as pessoas  se conectem mais e se relacionem menos, nisso a gente acaba ficando mais individualista, acreditando que as coisas só dependem de nós mesmos e os sentimentos também, mas não é simples assim.

Não somos robôs,  não dá pra viver de  conselhos que nos digam como não se envolver ou não criar expectativas, isso pode acontecer, ao mesmo tempo os crushes só existem por que temos  liberdades de escolha maiores pra se relacionar e todas elas têm um preço. 

Dentro de todo esse leque de opções que a vida líquida trouxe – crush, affair, rolo-só-que-não a única pergunta que vale a pena é : quanto vale um crush?  Até que ponto vale a pena dizer o que você sente para o crush? Ele está fazendo mal ou bem?  Será que o crush merece sua consideração e que você carregue adiante todo o rolo?

A resposta vai estar até que preço vale pagar por isso e até que ponto seu crush está valendo a pena, se está trazendo coisas boas ou não, porque todas as relações são incertas, tudo depende do quanto estamos dispostos a pagar por elas dentro do nosso tempo. 



K.C


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Uma dose de pílula digital

As chaves de casa, a maquiagem, a agenda, canetas, o livro da semana, algumas bagunças que só o meu mundo e minha bolsa entendiam. Assim sai de casa e começou  parte do meu dia, com a forte sensação de que tinha esquecido alguma coisa importante.

Olhei para o céu acinzentado, com a garoa caindo, na certeza que tomaria um belo toró por não ter levado guarda-chuva.






Até eu perceber que não tinha ouvido nenhum toque de ligação ou aviso de SMS dizendo “ já chegou o disco voador” – toque que utilizo para mensagens chatas e compromissos inadiáveis. Enfim, me dei conta de que havia esquecido o celular.

Não dava pra voltar naquele temporal e as beiradinhas das telhas me protegiam de um banho de chuva na metade do caminho. E agora? Como será o resto do meu dia sem o celular? – pensei, enquanto um relâmpago cortava o céu.

Alguém deve estar tentando falar comigo agora pois tenho pautas amanhã algum cliente também pode precisar e se acontecer alguma coisa urgente vou ficar sem música compro um aparelho extra mais simples mesmo? É bom ter um celu extra vai que dá alguma zica...ah tem o bofe também como ele vai falar comigo você não ia terminar o e-book que estava lendo hoje?...-  meu cérebro processava, sem vírgula alguma.




Voltei a calcular um retorno à minha casa e, em resposta, a chuva se enfureceu e eu fui obrigada a parar embaixo de um toldo qualquer. Só me restava esperar. Verbo tão estranho nos nossos dias, tão líquidos e instáveis como a chuva...

Comecei a reparar nas pessoas com seus celulares que estavam na mesma situação que eu embaixo do toldo, e nas outras que passavam por ali, mais atenciosas com os celulares do que com seus guarda-chuvas.

O celular já não é apenas uma necessidade, porque há acima disso a vontade de boa parte das pessoas de se sentirem conectadas com as coisas o tempo todo, pelo ato falho de querer existir para alguém, nem que seja por alguns instantes, e a vontade de pertencer e se isolar em mundos expostos na rede.

Até o jeito que se carrega celular é diferente: é como se ele tivesse se tornado um ativador dos dedos e não um objeto, como se fosse um remédio tomado em altas doses e sem o qual não conseguíssemos sobreviver. Uma espécie de pílula digital, desenvolvida para tratar de uma doença crônica, incurável.




Imersos nessa condição de isolamento em redes, deixamos de olhar para os detalhes mínimos no cotidiano que também se conectam a outras coisas, sejam elas belas ou não.

Estar conectado na rede facilita e muito a vida, é verdade, mas e daí que eu estava sem celular por um dia?

Tomei coragem e me conectei com a chuva, resolvi ir embora caminhando sob ela e, sabe, foi até interessante, tinha um quê de pensamento livre, destemido, um quê de  divertido, feito aquelas cenas inusitadas nos filmes do Woody Allen.





Cheguei em casa literalmente toda molhadinha, com uma chuva de mensagens para responder e sobrevivi ao mais importante: fiquei um dia sem minha dose de pílula digital pra contar essa história.


K.C

Está crônica é inédita e foi publicada na edição "Ordinária Literatura" da Revista Literária Primeiro Capítulo.



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Ps.: Vai ter coluna nova aqui blog, além das crônicas!!! Aguardem as novidades.